Kahelium


Acordei péssimo depois daquela noite. Olhei ao meu redor e fiquei assustadíssimo, já que não sabia onde estava. Sentei-me naquele chão de uma espécie de metal, o mesmo em que dormira, e passei a observar meu aposento.




Era um cubo, um tanto grande, mas o teto quase alcançava minha cabeça. Estava totalmente vazio.
Levantei-me ainda com certa dificuldade e comecei a andar. O chão produzia ruídos altos, possibilitando que quem estivesse nos arredores pudesse perceber que já me recuperava.
Os barulhos começaram a aumentar a cada passo, até que uma das placas em que pisei acionou um dispositivo, reproduzindo uma voz feminina que dizia:
– Olá Apolo, seja bem-vindo ao Kahelium, a mais nova nave espacial desenvolvida com alta tecnologia, (de ponta) vinda diretamente do planeta Saturno com destino ao Novo Sistema Solar. Aqui selecionamos, com base em alguns critérios, um ser vivo de cada planeta do Antigo Sistema Solar e possibilitamos o contato entre eles. Para qualquer informação, me chamo Gava. O Kahelium lhe deseja uma boa viagem!
Após ouvir a tal Gava, de voz tão artificial, parecidíssima com a dos tradutores encontrados na internet, achei uma ideia grandiosa poder viajar em uma nave espacial!
– Gava, quais são esses critérios que vocês utilizam? – perguntei.
Após alguns segundos, respondeu-me:
– Juntamos todos os defeitos que cada um dos seres vivos do planeta possui. O que apresentar a maior quantidade deles embarca na nossa nave.
– Defeitos! Pois então eu estou aqui pelos meus defeitos? – perguntei furioso. – E as qualidades? Não entram nessa?
– Você possui qualidades sim, e essas e outras qualidades serão desenvolvidas para que você possa se tornar alguém na vida. – Respondeu a voz.
– Quando poderei conhecer os outros tripulantes?
– Faremos uma reunião hoje às quatro horas da tarde, seguindo o relógio humano. Nessa primeira reunião conversaremos sobre a primeira missão de vocês. – Esclareceu.
– Combinado então!
Sentei-me naquele chão embaçado e gélido novamente e aguardei as duas horas que faltavam. Não estava fazendo nada, só sentei-me e tentei aliviar a dor de cabeça que estava vindo.
Quando meu relógio de pulso marcava quatro horas, a porta daquele mesmo metal desconhecido abriu-se automaticamente e possibilitou minha saída.
Saindo do meu aposento havia um corredor, de aproximadamente uns dois metros, que dava acesso a uma sala que devia ter uns 100 m², o que era bem maior que o meu apartamento da Terra.
Entrei na sala. Paredes e teto metálicos provocavam uma sensação gélida. Ao fundo, uma única porta entreaberta fazia entrar uma luz intensa, que se refletia no ambiente metálico. Estava sozinho, caminhei em direção à porta que me levou a um salão cheio de adoráveis tripulantes.
– Olá novamente Apolo! Quanta demora em chegar. Quase mandamos o nosso amigo Quetsa, de Mercúrio, buscar-lhe. – Disse um robô, que logo fui descobrir que era Gava.
– Imagina! Só... É... Então... Só estava explorando o novo local. – Disse nervoso, após ver o Mercuriano (se é assim que eles são chamados) de uns três metros de altura semelhante a um jacaré da Terra, só que com braços humanos.
– Que bom que já está conhecendo o Kahelium! Gostaria de apresentar-lhe à Lility, ela veio de Vênus e morou um bom tempo no seu planeta. – Disse Gava.
– Olá Lility! Em que parte da Terra você ficou?
– Vivi um bom tempo na Inglaterra. Ah! Gava, meu chá está pronto? Sabe que desde que voltei não consegui largar o chá! E aproveite para fazer uma xícara para nosso amigo Apolo! – Respondeu a alienígena idêntica a uma humana.
– Não Precisa! Não gosto muito de chá. Prefiro café. – Falei meio sem graça.
– Como assim? Achei que todos os terráqueos gostassem de chá! Onde já se viu! Não consigo acreditar! O que é esse tal de café afinal? – Indagou Lility indignada.
– É uma bebida escura produzida com grãos torrados. No meu país, grande parte das pessoas toma café. – Esclareci.
– Interessante! Gava, você pode fazer café para podermos experimentar, por favor? – Solicitou Lility.
Gava convidou-me a sentar em uma cadeira daquele metal e me deu o café, que foi feito em uma máquina cheia de botões estranhos com várias bebidas para cada planeta. A robô deu uma xícara para cada viajante e todos experimentaram. Alguns adoraram e outros detestaram e pediram até para a comandante Gava arrumar um jeito de se livrar daquilo.
– Bem, então já podemos começar nossa reunião? – Perguntou, e todos disseram “Sim” em coro.
Resumindo tudo o que foi dito: Estávamos em uma nave parecida com uma sanfona, em que cada parte do fole era um cômodo. Deveríamos viver em grupo, respeitando os direitos individuais e teríamos tudo o que fosse necessário para nossa sobrevivência e até receberíamos uma quantia igual em dinheiro espacial para que pudéssemos usar nas feiras intergalácticas, feiras onde se vende tudo o que é necessário para a sobrevivência no espaço. Ficaríamos lá por cerca de seis meses – Aproximadamente 100 anos na Terra – Seguindo a velocidade normal do Kahelium e tentaríamos colonizar o Novo Sistema Solar e levar para lá tudo de bom que aprendemos. Segundo a nossa comandante, o Novo Sistema Solar seria um lugar pacífico, igualitário e cheio de solidariedade, algumas das qualidades que desenvolveríamos naquela espaçonave.
Todos acharam uma ideia maravilhosa. Seríamos lembrados pelas futuras gerações pela criação de novas raças! Estávamos felicíssimos por conta disso.
Gava nos liberou e voltamos aos nossos quartos, só que dessa vez havia algo de diferente: Meu aposento estava mobiliado exatamente como meu quarto da Terra e havia uma janela enorme que possibilitava a visão do céu.
O céu, em seu azul escuríssimo, estava coberto de estrelas de diversos tamanhos e cores. A vista era inexplicavelmente fantástica.
Como não consegui me aguentar de tanta curiosidade, chamei Gava pelo dispositivo e perguntei:
– Gava, que tipo de metal é esse, que vejo por toda a nave?
– É chamado Açolástico. Ele garante a resistência do aço e a elasticidade do plástico, permitindo a modelagem perfeita até que o metal seque.
– Uau! Que interessante! Quem foi o gênio que criou uma coisa dessas?– Espantei-me.
– O Açolástico é uma invenção originária do planeta Mercúrio, que utiliza o calor resultante da sua proximidade ao Sol para a fabricação de metais especiais.
– Que maravilhoso! E a gravidade? Como nós não estamos flutuando?
– Simples! Nós temos uma máquina que produz gás pressurizado, o mesmo que os astronautas da Terra utilizam em seus trajes. Mas aqui, no lugar desse gás estar nas roupas, ele está contido no ar. – Esclareceu a robô.
– Que incrível! Por enquanto são essas as minhas dúvidas. Obrigado!
Repentinamente, senti uma pressão, como se algo tivesse se chocado com o Kahelium – Algo não, centenas de coisas! – A nave estava em turbulência, e pude ver explosivos através da janela. Entrei em pânico. Ao mesmo tempo escutava os gritos dos outros viajantes, desesperados. Podíamos não sair daquela vivos, portanto poderíamos acabar sem colonizar o Novo Sistema Solar. As faíscas que saíam conforme o choque dos explosivos com as naves eram aterrorizantes, mas nem tanto como quando eles explodiam. Caí no chão, em choque. Podia ser meu último momento em vida. Fechei meus olhos e aguardei que a morte viesse ao meu encontro.

Leia a continuação >>

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.